‘O mundo é mau’, dizia minha avó, já não sei ao certo se falava para mim ou para si mesma, mas lembro claramente se deus palavras repetidas tantas vezes. Como pode uma verdade tão conhecida ser tão desprezada e ignorada, mesmo sendo completamente necessária? Como pode ser tão má interpretada?
Desde cedo eu soube que o mundo era mau, perverso, cruel, mas descobri um pouco tarde demais que o mundo - coitado- recebeu essa fama sem merecer, porque não é ele que não presta, mas sim as pessoas que vivem por aqui. As pessoas. Você. Eu. Somos todos corpos preenchidos por almas que podem ser boas ou más, puras ou imundas, dependendo do que escolhermos.
Por muito tempo, tentei me enganar e acreditar que todos somos bons naturalmente. Infelizmente, a vida nos mostra com pequenas lições que a verdadeira natureza do ser humano é ser guiado pelas suas vontades, nem nenhum tipo de princípio moral ou compaixão pelo próximo, sem se importar em pisar em algumas cabeças para conquistar seu alvo.
As pessoas são más. Entenda.
Mas não desista da vida, afinal, não é um quadro completamente perdido. Cabe a nós controlarmos as vontades, pensarmos mais uns nos outros e buscarmos a paz, a alegria e o amor. Sobretudo o amor, pois sem ele somos apenas seres maldosos, que magoam uns aos outros sem nem mesmo pedir perdão.
Tudo começou quando ela era bem nova. Não me lembro ao certo a idade, mas com certeza foi na adolescência. Ela era normal demais, baixinha demais, sem sal demais, era dificilmente notada por alguém além de seus amigos. Era uma época feliz, simples, a maioria não ligava de não fazer diferença nenhuma, estavam acostumados em ser apenas alguns a mais no meio de tanta gente. Mas ela não.
Talvez esse tenha sido o primeiro equivoco. O que faz uma pessoa trocar as boas e pacatas amizades por algo diferente? Algo desconhecido, porém terrivelmente atrativo. Ela queria ser diferente, queria parecer diferente dos demais, se destacar.
Nas primeiras festas ela só ia para dançar e fingir que era mais velha. Tudo o que ela fazia, ela precisava que soubessem, foi o segundo erro. Fazer o que ela fazia já não era o suficiente.
Quando o pai foi preso, ela resolveu dar um passo além. O gosto das bebidas deixou de ser amargo comparado a todos os problemas que ela precisava enfrentar. Ninguém nunca tentou pará-la, tinham pena, achavam que passaria logo, era uma fase.
Enquanto ela estava alta, nada conseguia tirar a alegria dela. Todos na sua escola achavam que ela era feliz, por causa do dinheiro que não faltava e das fotos em que ela saia sorrindo. Estava sempre sorrindo…
Mas o futuro é imprevisível e não importa o quanto a menina quisesse controlar a sua própria vida, nem sempre as coisas davam certo. Em algum momento em que estava sóbria, os olhos dele a encontraram. Não havia sombra para se esconder, nem sorriso, nem roupa, nem festa que pudesse fazê-la esquecer daquele olhar.
Maldita sorte…